Sunday, March 19, 2006

Regras de Leitura

Para todos os que tem duvidas sobre quais as regras de leitura, aquelas que a professora de português do 9º ano nos ensinou... Aqui ficam aquelas que são (pouco) consensuais:
1ª - não é obrigatório começar pelo inicio
2ª - não é obrigatório acabar
3ª - a poligamia é totalmente permitida... não é necessário ser-se fiel a um unico livro ao mesmo tempo
4ª - não é obrigatório ter cuidado com o seu trato nem ter um marcador
5ª - não é obrigatório ler-se pela ordem das páginas nem sequer ler TODAS as páginas...
6ª - não é obrigatório gostar dos autores consensualmente mestres nem odiar os proscritos
7ª - não é obrigatório lêr todos os dias, nem acabar um para começar outro... é perfeitamente aceitável intercalar vários livros...
8ª - não é obrigatório prezar a biblioteca nem ser ciumento, uma vez terminado um livro, é simpático empresta-lo
......
Acima de tudo, os livros são heranças culturais, são companhias e viagens intelectuais, fontes de conhecimento ou de entertenimento puro... são fragmentos de cumplicidade com todos os que partilharam as frases... porções de sentimentos, ainda que o sentimento seja aborrecimento... são actos de prazer egoista, que se revelam mais tarde na generosidade das conversas... são sonhos e pesadelos, mas sempre... sempre nos cenários que criamos, na forma como dispomos as personagens em palco, como dispomos as luzes e os cheiros, nesse processo de visualização que tão indulgentemente nos concedem... são aquilo que deles quizermos ler, aprender ou viver. São o banal, o real e o mágico.

GOA OU O DESPERTAR DA AURORA
Goa, séc XVII, climax da inquisição... O segundo da triologia, o terceiro a ser concebido. Mais uma vez o choque cultural, um judeu, cristãos e todas as culturas locais, mais uma vez os pormenores culturais deliciosos, que emprestam uma riqueza adicional á história, e, invariávelmente um estilo de escrita e uma narrativa fantástica.
O Goa é um culminar de uma evolução de estilo ao longo dos três livros, é um drama com uma profundidade emocional esmagadora. O Richard Zimmler explora emocionalmente os personagens ao limite, faz deles peões, não do destino, mas dos seus sentimentos e vontades inconscientes. É sem duvida o mais pesado e lento dos três livros, em que a herança judaica se revela numa força critica brutal.
Imperdivel, como elemento da triologia, a lêr, mas apenas com disponibilidade psicologica para toda a intensidade emocional subjacente.

MEIA-NOITE OU O PRINCIPIO DO MUNDO
O terceiro livro da triologia do Richard Zimmler, embora o segundo a ser escrito...
Porto, séc XVIII, estertor da inquisição... Um livro quase épico que acompanha a vida de um filho de um protestante nórdico e uma judia... Apaixonante, com uma narrativa mais densa e mais pausada, regressa ao tema da interacção cultural... Povoado de pormenores brilhantes de riqueza cultural, desta vez com a ajuda de um boxímane.
O meia-noite, acaba por se tornar, assumidamente, numa triologia dentro da triologia, que pelo comprimento da história, acaba por se dividir em três partes distintas. Mais uma vez, brilhante na narrativa, não é tão acutilante na tendencia judaica.
Mais um livro imperdivel, como épico, como drama, como romance histórico, como retrato do nosso Porto, um Porto passado e perdido, mas com os ambientes, a luminosidade e os cheiros que tão bem conhecemos...

O ULTIMO CABALISTA DE LISBOA
Devo começar por confessar que sou um verdadeiro admirador do Richard Zimmler...
Este livro é o primeiro e o meu preferido da triologia, e aconselho todos os que não conhecem o autor a começar por este titulo.
Lisboa, séc XVI, génese da inquisição... O cabalista é um romance histórico ao estilo de policial, com uma narrativa fantástica, um ritmo viciante, que tem como apelativos adicionais o facto de se passar em Lisboa, o que cria fáceis identificações locais e culturais, e o facto de criar interacção e tensão entre personagens de culturas diferentes... Judeus, Cristãos e muçulmanos...
Abstenho-me de criticais adicionais, sob risco de me tornar redundante na adjectivação...
Imperdivel, mas ciente do facto de ter sido escrito sob um ponto de vista assumidamente judeu.

CODEX 632
Heis um bom exemplo de um escritor indeciso... perdido numa história tecida com três linhas distintas. O pretexto do policial histórico, perde-se neste três em um... á dimensão do fio condutor principal, soma-se um drama familiar e um compendio histórico que extravasa o conhecimento enciclopédico.
O pretexto do argumento é realmente interessante, mas perde demasiado protagonismo para o desenrolar do drama familiar que alimenta. Os diálogos (leia-se monólogos interrompidos por curtissimas saídas "naifs"do segundo locutor, que justificam estes longos devaneios) quebram em demasia o ritmo da história, tornando a narrativa um pouco pesada e massuda...
Acaba por parecer uma operação de auto-afirmação cultural do José Rodrigues dos Santos, ao estilo de um roteiro Michelan.
A lêr, por curiosidade histórica, não como um romance empolgante, mas pelo manancial de cultura, que indubitavelmente é...