Friday, November 17, 2006

A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Viver uma vida vivida é tudo o que a Casa dos Espíritos é. É Vida que sorri, é Vida que chora, é Vida que sangra, é Vida que cruza com outra Vida, é Vida que ama e que odeia, é Vida que nasce e que morre. Mas é sobretudo o ideal de um sonho, da pegada do Homem na Terra e da luta deste para que essa pegada não se apague. É uma obra-prima.

Toda e qualquer descrição que eu possa fazer desta obra será redutora, perante a sua grandeza e beleza. As linhas acima foram a melhor forma que encontrei para o fazer. A isto acrescento que amava viver como esta família viveu, sem tempos vazios.

Bem ao estilo dos escritores latino-americanos, a autora constrói um enredo composto por imensas personagens, recheado de apontamentos político-sociais do Chile ao longo do último século, apontamentos estes minuciosa e arquitectonicamente descritos.
As dicotomias presentes ( masculino-feminino; nascimento-morte; rico-pobre; esquerda-direita )são outra das grandes forças conferidas a esta estória. De uns nasce a intolerância, a solidão e a violência. Noutros floresce o desespero, a vingança e a esperança. Em todos existe uma enorme capacidade de amar... o próximo, o anterior, a terra, as causas, a mãe, o filho, a natureza, o país... sendo que na maioria das vezes este amor não se cruza.
Não sei se pela minha forma romântica de ver as coisas, se por outra qualquer razão, o certo é que se à partida esta vos possa parecer uma história com um potencial final dramático e triste, isso não acontece, pois uma Vida vivida como a destas personagens de modo nenhum nos poderá entristecer. :)

Boas Leituras.

De Profundis, Valsa Lenta - de José Cardoso Pires

De Profundis é a dança de uma nuvem num silêncio ensurdecedor.
José Cardoso Pires, o homem que nos habituou a leituras neo-realistas, algumas confluentes com o existencialismo, surge-nos por motivos pessoais com a história de um Outro que perde a vida anterior e interior, devido a um acidente vascular cerebral.
Da memória de uma desmemória ficaram 69 páginas de literatura pura e dura, mais pura que dura, como ele fez questão de transparecer. O melodrama não existe nesta leitura, não que a experiência não o tenha sido, mas porque a criação literária não o reivindica.
Em Janeiro de 1995, José Cardoso Pires descobre o Outro que ele era e não sabia existir. Que fazer quando se perspectiva o fim, sem que necessariamente esse fim seja a morte? O Génio fala por si e vocês terão de lê-lo para saberem o que ele disse.

Boas Leituras.

O Túnel, de Ernesto Sabato

Este é um túnel vertical, em forma de cone e com uma pequeníssima brecha no seu fundo. É a solidão, a incompreensão e a falta de comunicação. E não foi para rimar que escolhi estas palavras. É uma história da busca do amor, ou do que Juan Pablo Castel ( personagem principal ) pensa que possa ser o amor. É a busca de um olhar que lhe diga " Sei o que sentes" e a ansiedade de uns lábios que lhe sussurem " Estou aqui ". O ciúme é acrescentado à narrativa como justificação aos actos tresloucados e insensatos do protagonista, mas como em todas as relações este ingrediente é só uma consequência de todas as (in)seguranças de alguém que muito antes de encontrar o amor, precisa de encontrar-se a ele próprio.
Não é um romance genial. É uma história que se pensarmos bem até é banal, sem que todas as histórias semelhantes tenham um final tão trágico ( morte da amante, suicídio do marido da amante, prisão do protagonista ). Mas não será assim tão menos trágico perder o amor de alguém, perdermos o respeito por nós próprios, enfim, deambularmos como fantasmas. O que quero dizer é que o mais interessante do livro é mesmo percebermos que tecer um casulo e fecharmo-nos lá dentro é indício de que a espiral do silêncio pode ser o princípio do fim.

Boas Leituras