Friday, October 26, 2007

A Ilha das Trevas, de José Rodrigues dos Santos

São livros como este que me fazem compreender ainda melhor porque o apelo pelo jornalismo esteve sempre dentro de mim. Não atribuo isso ao facto de A Ilha das Trevas ter sido escrito por um jornalista, ou pelo menos não só a isso. Aliás, devo confessar que foi o primeiro romance que li de José Rodrigues dos Santos, mas sinto-me à vontade para dizer que temos escritor… com vestígios de um olhar incisivo sobre o que o rodeia, característica esta decorrente da sua profissão, penso eu. Todavia, incidamo-nos sobre o núcleo central de qualquer livro, a narrativa.

A Ilha aqui presente é Timor-Leste, as Trevas a situação em que deixámos essa população após a atarantada deserção dos portugueses, a que chegámos a chamar descolonização. O mérito da estória? Transportar-nos para anos e anos de puro terror, físico e psicológico. Abrir-nos caminhos para percebermos melhor o drama de milhões de “moribundos”, pois os timorenses não passaram disso mesmo durante mais de 27 anos. Muitos dos que não morreram, certamente quiseram esse destino para si e para as suas famílias.

Serviu este relato para perceber que os heróis não existem só na banda desenhada, mas que também não são super-homens; para confirmar que Portugal é politicamente pequeno, mas recheado de grandes cérebros; para lembrar que as pessoas são o que são pelas suas atitudes e não pelas suas ideias.

A máquina do tempo por que passei ao ler este livro arrastou-me para um passado que não conheci, mas fez-me querer pertencer a um futuro que não deixará nas mãos dos outros aquilo que devemos ser NÓS a fazer, todos NÓS.

Boas Leituras.

Friday, November 17, 2006

A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Viver uma vida vivida é tudo o que a Casa dos Espíritos é. É Vida que sorri, é Vida que chora, é Vida que sangra, é Vida que cruza com outra Vida, é Vida que ama e que odeia, é Vida que nasce e que morre. Mas é sobretudo o ideal de um sonho, da pegada do Homem na Terra e da luta deste para que essa pegada não se apague. É uma obra-prima.

Toda e qualquer descrição que eu possa fazer desta obra será redutora, perante a sua grandeza e beleza. As linhas acima foram a melhor forma que encontrei para o fazer. A isto acrescento que amava viver como esta família viveu, sem tempos vazios.

Bem ao estilo dos escritores latino-americanos, a autora constrói um enredo composto por imensas personagens, recheado de apontamentos político-sociais do Chile ao longo do último século, apontamentos estes minuciosa e arquitectonicamente descritos.
As dicotomias presentes ( masculino-feminino; nascimento-morte; rico-pobre; esquerda-direita )são outra das grandes forças conferidas a esta estória. De uns nasce a intolerância, a solidão e a violência. Noutros floresce o desespero, a vingança e a esperança. Em todos existe uma enorme capacidade de amar... o próximo, o anterior, a terra, as causas, a mãe, o filho, a natureza, o país... sendo que na maioria das vezes este amor não se cruza.
Não sei se pela minha forma romântica de ver as coisas, se por outra qualquer razão, o certo é que se à partida esta vos possa parecer uma história com um potencial final dramático e triste, isso não acontece, pois uma Vida vivida como a destas personagens de modo nenhum nos poderá entristecer. :)

Boas Leituras.

De Profundis, Valsa Lenta - de José Cardoso Pires

De Profundis é a dança de uma nuvem num silêncio ensurdecedor.
José Cardoso Pires, o homem que nos habituou a leituras neo-realistas, algumas confluentes com o existencialismo, surge-nos por motivos pessoais com a história de um Outro que perde a vida anterior e interior, devido a um acidente vascular cerebral.
Da memória de uma desmemória ficaram 69 páginas de literatura pura e dura, mais pura que dura, como ele fez questão de transparecer. O melodrama não existe nesta leitura, não que a experiência não o tenha sido, mas porque a criação literária não o reivindica.
Em Janeiro de 1995, José Cardoso Pires descobre o Outro que ele era e não sabia existir. Que fazer quando se perspectiva o fim, sem que necessariamente esse fim seja a morte? O Génio fala por si e vocês terão de lê-lo para saberem o que ele disse.

Boas Leituras.

O Túnel, de Ernesto Sabato

Este é um túnel vertical, em forma de cone e com uma pequeníssima brecha no seu fundo. É a solidão, a incompreensão e a falta de comunicação. E não foi para rimar que escolhi estas palavras. É uma história da busca do amor, ou do que Juan Pablo Castel ( personagem principal ) pensa que possa ser o amor. É a busca de um olhar que lhe diga " Sei o que sentes" e a ansiedade de uns lábios que lhe sussurem " Estou aqui ". O ciúme é acrescentado à narrativa como justificação aos actos tresloucados e insensatos do protagonista, mas como em todas as relações este ingrediente é só uma consequência de todas as (in)seguranças de alguém que muito antes de encontrar o amor, precisa de encontrar-se a ele próprio.
Não é um romance genial. É uma história que se pensarmos bem até é banal, sem que todas as histórias semelhantes tenham um final tão trágico ( morte da amante, suicídio do marido da amante, prisão do protagonista ). Mas não será assim tão menos trágico perder o amor de alguém, perdermos o respeito por nós próprios, enfim, deambularmos como fantasmas. O que quero dizer é que o mais interessante do livro é mesmo percebermos que tecer um casulo e fecharmo-nos lá dentro é indício de que a espiral do silêncio pode ser o princípio do fim.

Boas Leituras

Thursday, April 20, 2006

O CASAMENTO DE CHON RECALDE

Sem ser necessário o pretexto de um grande argumento, apenas por pura diversão, contextualiza uma sociedade fechada numa pequena cidade costeira espanhola... diverte-se a criar uma textura social simples, em que personagens ingenuamente complexas se hierarquizam numa comunidade estagnada e fechada. Lança dois elementos novos no "caldo", e deixa a narrativa seguir quase por si, empíricamente... Este retrato social é retratado de uma forma aparentemente simples, mas o alcance da forma como explora o lado humano social mais natural das suas personagens, tão sublime quanto profundo, é cunho genial do escritor que tantas horas me acompanhou com as suas narrativas, e ao qual confesso a minha enorme admiração, Gonzalo Torrente Ballester.

Sunday, March 19, 2006

Regras de Leitura

Para todos os que tem duvidas sobre quais as regras de leitura, aquelas que a professora de português do 9º ano nos ensinou... Aqui ficam aquelas que são (pouco) consensuais:
1ª - não é obrigatório começar pelo inicio
2ª - não é obrigatório acabar
3ª - a poligamia é totalmente permitida... não é necessário ser-se fiel a um unico livro ao mesmo tempo
4ª - não é obrigatório ter cuidado com o seu trato nem ter um marcador
5ª - não é obrigatório ler-se pela ordem das páginas nem sequer ler TODAS as páginas...
6ª - não é obrigatório gostar dos autores consensualmente mestres nem odiar os proscritos
7ª - não é obrigatório lêr todos os dias, nem acabar um para começar outro... é perfeitamente aceitável intercalar vários livros...
8ª - não é obrigatório prezar a biblioteca nem ser ciumento, uma vez terminado um livro, é simpático empresta-lo
......
Acima de tudo, os livros são heranças culturais, são companhias e viagens intelectuais, fontes de conhecimento ou de entertenimento puro... são fragmentos de cumplicidade com todos os que partilharam as frases... porções de sentimentos, ainda que o sentimento seja aborrecimento... são actos de prazer egoista, que se revelam mais tarde na generosidade das conversas... são sonhos e pesadelos, mas sempre... sempre nos cenários que criamos, na forma como dispomos as personagens em palco, como dispomos as luzes e os cheiros, nesse processo de visualização que tão indulgentemente nos concedem... são aquilo que deles quizermos ler, aprender ou viver. São o banal, o real e o mágico.

GOA OU O DESPERTAR DA AURORA
Goa, séc XVII, climax da inquisição... O segundo da triologia, o terceiro a ser concebido. Mais uma vez o choque cultural, um judeu, cristãos e todas as culturas locais, mais uma vez os pormenores culturais deliciosos, que emprestam uma riqueza adicional á história, e, invariávelmente um estilo de escrita e uma narrativa fantástica.
O Goa é um culminar de uma evolução de estilo ao longo dos três livros, é um drama com uma profundidade emocional esmagadora. O Richard Zimmler explora emocionalmente os personagens ao limite, faz deles peões, não do destino, mas dos seus sentimentos e vontades inconscientes. É sem duvida o mais pesado e lento dos três livros, em que a herança judaica se revela numa força critica brutal.
Imperdivel, como elemento da triologia, a lêr, mas apenas com disponibilidade psicologica para toda a intensidade emocional subjacente.

MEIA-NOITE OU O PRINCIPIO DO MUNDO
O terceiro livro da triologia do Richard Zimmler, embora o segundo a ser escrito...
Porto, séc XVIII, estertor da inquisição... Um livro quase épico que acompanha a vida de um filho de um protestante nórdico e uma judia... Apaixonante, com uma narrativa mais densa e mais pausada, regressa ao tema da interacção cultural... Povoado de pormenores brilhantes de riqueza cultural, desta vez com a ajuda de um boxímane.
O meia-noite, acaba por se tornar, assumidamente, numa triologia dentro da triologia, que pelo comprimento da história, acaba por se dividir em três partes distintas. Mais uma vez, brilhante na narrativa, não é tão acutilante na tendencia judaica.
Mais um livro imperdivel, como épico, como drama, como romance histórico, como retrato do nosso Porto, um Porto passado e perdido, mas com os ambientes, a luminosidade e os cheiros que tão bem conhecemos...

O ULTIMO CABALISTA DE LISBOA
Devo começar por confessar que sou um verdadeiro admirador do Richard Zimmler...
Este livro é o primeiro e o meu preferido da triologia, e aconselho todos os que não conhecem o autor a começar por este titulo.
Lisboa, séc XVI, génese da inquisição... O cabalista é um romance histórico ao estilo de policial, com uma narrativa fantástica, um ritmo viciante, que tem como apelativos adicionais o facto de se passar em Lisboa, o que cria fáceis identificações locais e culturais, e o facto de criar interacção e tensão entre personagens de culturas diferentes... Judeus, Cristãos e muçulmanos...
Abstenho-me de criticais adicionais, sob risco de me tornar redundante na adjectivação...
Imperdivel, mas ciente do facto de ter sido escrito sob um ponto de vista assumidamente judeu.

CODEX 632
Heis um bom exemplo de um escritor indeciso... perdido numa história tecida com três linhas distintas. O pretexto do policial histórico, perde-se neste três em um... á dimensão do fio condutor principal, soma-se um drama familiar e um compendio histórico que extravasa o conhecimento enciclopédico.
O pretexto do argumento é realmente interessante, mas perde demasiado protagonismo para o desenrolar do drama familiar que alimenta. Os diálogos (leia-se monólogos interrompidos por curtissimas saídas "naifs"do segundo locutor, que justificam estes longos devaneios) quebram em demasia o ritmo da história, tornando a narrativa um pouco pesada e massuda...
Acaba por parecer uma operação de auto-afirmação cultural do José Rodrigues dos Santos, ao estilo de um roteiro Michelan.
A lêr, por curiosidade histórica, não como um romance empolgante, mas pelo manancial de cultura, que indubitavelmente é...